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A borbulhante história de Adolfo Lona

O espumante brasileiro conta hoje com um bom número de fãs cativos (incluindo nós, com certeza! ). Só que não foi sempre assim. A virada teve início na década de 1970 e teve entre seus protagonistas um simpático enólogo argentino. Para nossa sorte, ele fincou raízes no Brasil (em Garibaldi/RS) e continua produzindo bolhinhas mágicas…

Adolfo Alberto Lona nasceu em Buenos Aires e se formou em enologia pela Faculdad Don Bosco (Mendoza). Em 1974, foi ‘importado’ para o Brasil pela Martini & Rossi (posteriormente Bacardi Martini) para cuidar da produção de vinhos finos em sua unidade na Serra Gaúcha.

Àquela época, o mercado brasileiro de bebidas era muito fechado, o que tornava o preço do vinho importado inacessível. Multinacionais, como a própria Martini (além de Heublein, Seagran, Almadén, Chandon, entre outras), enxergaram a oportunidade de suprir a carência por vinhos finos e se instalaram por aqui.

O período das companhias internacionais foi uma época de grandes e importantes avanços. Castas europeias renomadas (como cabernet sauvignon, merlot, chardonnay…) foram importadas e plantadas, a produção conheceu nova técnicas e equipamentos, e uma eficiente rede comercial e logística colocava a produção gaúcha à disposição dos consumidores de todo o país. Adolfo Lona acompanhou e participou intensamente desse momento, atuando tanto na vinícola como nos vinhedos.

Junto aos viticultores, incentivou a adoção de manejos que valorizavam a qualidade da fruta ao invés da quantidade e ajudou a implantar sistemas que premiavam os bons produtores, pagando mais pelas produção de padrão superior. Na cantina (ou vinícola), selecionou castas estrangeiras à medida em que se adaptavam (ou não) às condições locais, e aperfeiçoou e adequou diferentes processos ao longo de todo o ciclo da vinificação.

Lona percebeu cedo o potencial do Brasil para o espumante: “os melhores representantes do vinho nacional”. Na década de 1970, desenvolveu o ‘champagne’ De Greville, um charmat com maturação mais elaborada que rapidamente conquistou o segmento premium da época.

Anúncio do ‘Champagne’ De Greville, em 1977. Fonte: Oswaldo Hernandez (Anúncios Anos 70)

Na Bacardi Martini, onde permaneceu como diretor técnico por mais de 30 anos, associou seu nome a linhas que marcaram época. Além dos espumantes, esteve à frente de outros sucessos como o Barón de Lantier e o Château Duvalier (o rótulo brasileiro mais vendido até hoje).

Anúncio do Château Duvalier, em 1978.
Fonte: Oswaldo Hernandez (Anúncios Anos 70)

Voo solo

Em 2004, resolveu se lançar em um projeto autoral. Para acompanhar sua experiência ímpar, apena uma “adega especialmente preparada para elaborar pequenas quantidades, de forma artesanal, sem equipamentos sofisticados”. Utilizando o tempo como aliado, apostou em ciclos de produção mais longos, cumpridos em instalações escuras e com temperaturas constantemente baixas.

Placa da Adega Adolfo Lona na Rota dos Espumantes, em Garibaldi/RS.
Foto Jeriel da Costa (Blog do Jeriel), 2011.

Na enologia, Lona sempre seguiu a escola da mínima intervenção. Defende que o enólogo deve acompanhar a produção desde o vinhedo, decifrando as potencialidades, atuando como um tutor e agindo sempre com sutileza, apenas para corrigir desvios de rota.

Pioneiro, o argentino foi o primeiro a introduzir no Brasil o conceito de ‘nature’: espumantes que não levam a adição de açúcar após o processo de retirada das leveduras da garrafa (dégorgement). Entusiasta da merlot nacional, incluiu a casta ao corte tradicional (chardonnay e pinot noir) de alguns de seus espumantes.

Assim nasceu o primeiro espumante nature rosé nacional: o icônico Orus Pas Dosé Rosé. Frequentador assíduo das listas dos melhores espumantes brasileiros, o rótulo tem um ciclo de produção de 24 meses e é feito em lotes mínimo que não chegam a 650 garrafas.

Adolfo LonaOrus Pas Dosé Rosé

No Mulier Série Orus Nature Rosé (lançamento), Lona dá à merlot a condição de protagonista (o espumante tem também 40% de pinot noir). Trata-se de um nature rosé com ciclo de 24 meses (18 com as leveduras e 6 em cave) e, novamente, em lotes muito pequenos (é de beber de joelhos).

Adolfo Lona Mulier Série Orus Espumante Nature Rosé

A opção pelos ciclos produtivos mais longos também se repetiu nos seus espumantes de entrada. O Brut e o Nature (esse com uma pitada de merlot vinificada em branco) produzidos pelo método tradicional (champenoise) têm ciclos de 18 meses e posicionam em um patamar de qualidade sensivelmente superior ao de outros espumantes dos mesmos segmentos. O mesmo acontece com sua linha charmat – Brut Branco e Brut Rosé – que tem uma fase de tomada de espuma não inferior a 180 dias, também mais longa que o habitualmente praticado pela indústria.

Adolfo Lona Brut Tradicional e Nature Tradicional
Adolfo Lona Brut Branco e Brut Rosé (Charmat)

Embora confiante na qualidade de seus espumantes, Lona não gosta de participar de concursos: “tem clientes que perguntam: quantas medalhas você ganhou? Nenhuma, porque eu não participo de concursos.” Mesmo assim, tem conquistado o reconhecimento da crítica, inclusive internacional.

Na última vez que teve seus vinhos avaliados pelo Guia Descorchados (Chile), em 2018, Lona ficou com o título de melhor espumante brasileiro com seu Orus Edição Limitada Silvia 1972. Ao todo, o enólogo teve 6 rótulos pontuados:

Adolfo Lona Orus Edição Limitada Silvia 1972 – 93 pontos

Adolfo Lona Orus Pas Dosé Rosé – 92 Pontos

Adolfo Lona Nature Pas Dosé Espumante Tradicional – 92 pontos

Adolfo Lona Brut Espumante Tradicional – 90 pontos

Adolfo Lona Brut Branco – 88 pontos

Adolfo Lona Brut Rosé – 88 pontos

Em 2020, o efeito La Niña trouxe um verão excepcionalmente seco no Rio Grande do Sul. Se a mudança foi um problema para outras culturas, para os vinhedos, ao menos, ela foi fantástica. Os frutos atingiram o grau máximo de maturação e a colheita 2020 foi reconhecida como uma ‘super safra’.

Dispondo da matéria prima perfeita, Lona resgatou suas origens e retomou a produção de vinhos tranquilos com um chardonnay jovem, frutado e muito bem acabado (nós adoramos), e um merlot (olha a merlot aí de novo) com pequeno corte de tannat, que mostra muita personalidade, mas deve se refinar ainda mais com o tempo.

Adolfo Lona Chardonnay e Merlot 2020

Onde encontrar?

A Confraria dos Bacanas tem toda a linha de Adolfo Lona disponível para pronta entrega e a preços justos. Enviamos para todo o Brasil e na cidade de São Paulo (maioria dos bairros), compras acima de 200 reais têm frete grátis!

Para saber mais:

Confraria dos Bacanas: https://bacanas.com.br/adolfo-lona/

Vinhos e Espumantes Adolfo Lona: http://adolfolona.com.br/

Vinho Sem Frescura: http://adolfolona.blogspot.com/

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17 DE ABRIL: MALBEC WORLD DAY

No dia 17 de abril se comemora o Dia Internacional da Malbec. A data foi estabelecida pela associação de produtores argentinos (Wines of Argentina), em 2011, para melhorar o posicionamento de seu vinho no mundo.

Se hoje a casta é quase sinônimo de vinho argentino, isso não foi sempre assim. A malbec tem sua origem no sudoeste da França (Gascônia), onde é a base para os vinhos muito escuros e densos, denominados “Cahors” (principal cidade da região). Segundo as normas locais, o vinho de Cahors deve conter um mínimo de 70% de malbec e o restante pode variar entre a tannat e merlot.

A cidade de Cahors está localizada às margens do rio Lot, no sudoeste da França

A introdução da cultura da vinha na Gascônia teve início no Império Romano, consolidou-se ao longo da Idade Média e ganhou força no final do século XVIII, com a conquista do mercado inglês. Foi justamente a partir de 1776 que o vinho feito com a “côt” (outro nome da malbec) passou a entrar na Inglaterra com as mesmas taxas que já recebia a produção da vizinha Bordeaux.

Por falar em Bordeaux, a malbec é uma das tintas permitidas no famoso blend bordalês. Ali, já foi muito cultivada, mas perdeu espaço para a cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot. Hoje, seu cultivo tem algum destaque nas sub-regiões de “Côtes de Bourg”, “Blaye” e “Entre-Deux-Mers”.

Argentina x França

Em 17 de abril de 1853 (olha o 17 de abril aí!), Domingos Faustino Sarmiento – que na década seguinte viria a se tornar presidente da Argentina – incumbiu o agrônomo francês Michel Aimé Pouget da missão de modernizar a produção local da uva de do vinho.

Michel Aimé Pouget

Pouget trouxe e testou localmente várias cepas de uvas europeias. A boa adaptação da malbec fez com que seu cultivo avançasse, especialmente conduzido por imigrantes italianos e franceses. Esse pioneiros também introduziram técnicas de vinificação francesas, as quais foram gradualmente adaptadas à realidade local e formaram uma bases importante da enologia argentina.

O desenvolvimento da cultura da vinha na Argentina contou com muitos imigrantes, especialmente italianos e franceses.

Enquanto isso (por volta de 1870), um pulgão vindo da América do Norte chega à Europa e começa a dizimar os parreirais. Era a filoxera! A França foi um dos locais mais afetados e situação só começou a normalizar após o desenvolvimento de uma técnica de enxertia resistente ao inseto, quase 30 anos depois.

Algumas regiões (como Cahors), no entanto, não se recuperaram de imediato fazendo com que seu vinho ficasse ‘adormecido’. A malbec (agora enxertada) retornou a Bordeaux, onde se tornou uma das variedades predominantes na primeira metade do século XX. Contudo, a forte geada de 1956 evidenciou sua fragilidade e a casta foi gradualmente substituída.

Os problemas da Europa não atingiram a malbec argentina, que continuou prosperando. Na década de 1990, Nicolás Catena inicia experiências bem sucedidas com o plantio de cepa em altitudes entre 800 m e 1.500 m acima do nível do mar. Em seus experimentos, o produtor também selecionou clones mais adaptados às novas condições.

O bom resultado da malbec de altitude fez a fama de enólogos locais (como Susana Balbo e Jorge Ricitelli) e atraiu renomados estrangeiros (Paul Hobbs, Michael Rolland e outros). Hoje, há diversos rótulos de malbec argentino no topo de rankings festejados como Robert Parker, James Suckling ou Tim Atkins.

A enóloga e produtora argentina Susana Balbo.

E foi justamente esse interesse mais recente pela malbec, trazido pelo sucesso argentino, que fez a côt francesa de Cahors despertar. Os varietais da região estão em alta e seus vinhedos e produtores tem conseguido captar muitos investimentos.

Nada que abale a liderança Argentina, que hoje registra mais de 20 mil hectares plantados da malbec, enquanto Cahors tem apenas de 4 mil (a França toda não chega a 7 mil hectares de malbec). Outras partes do mundo, entre elas o Chile, somam 5 mil hectares da cepa.

Contudo, a malbec argentina não é exatamente igual suas irmãs francesas atuais. A variedade de nossos hermanos tem cachos mais densos e bagas menores. Estudos modernos sugerem que as mudas trazidas por Pouget são de uma variante francesa extinta por lá, provavelmente durante a crise da filoxera.

Para saber mais:

Wines of Argentina: https://www.winesofargentina.org/pt

Revista Adega: https://revistaadega.uol.com.br/artigo/cahors-outra-terra-da-malbec_439.html

Para experimentar um malbec a preços justos:

https://bacanas.com.br/uva/malbec/